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Luto e FamíliaAbril 20265–7 min

"Pelo menos não sofreu": por que essa frase pode machucar quem está de luto

Dita com a melhor das intenções, essa frase pode, sem querer, minimizar a dor de quem perdeu alguém. Entenda por que o luto não precisa de correção — precisa de reconhecimento.

Eu ouço essa frase com certa frequência. Quase sempre dita por alguém que quer ajudar, que está genuinamente tentando oferecer algum consolo diante da morte de uma pessoa querida.

"Pelo menos não sofreu."

Entendo completamente a intenção. E recoñeço que ela vem, na maioria das vezes, de um lugar honesto do nosso coração. Mas depois de um tempo acompanhando famílias em luto, percebo que essa frase raramente consola. E, em muitos casos, potencialmente pode machucar.

O problema do “pelo menos”

Quando alguém coloca um “pelo menos” diante da dor do outro, mesmo sem perceber, está propondo uma espécie de hierarquia. Está dizendo que existe um tipo de perda que deveria doer menos. Que se a morte foi serena, sem dor visível, sem uma agonia prolongada, então talvez o luto pudesse ser mais brando.

Só que o luto não funciona assim.

A dor de perder alguém não se calibra pelas circunstâncias da morte. Ela se ancora no vínculo, no espaço que aquela pessoa ocupava na rotina, ou em decisões e nos planos de quem ficou. Uma morte tranquila não produz uma ausência menor. É claro que vivenciar uma experiência de acompanhar alguém que a gente ama com sofrimento mais intenso pode ser ainda pior, mas isso não invalida as dores e partidas mais serenas.

Alívio e dor cabem no mesmo momento

Na minha prática clínica, vejo isso acontecer o tempo todo: uma família que passou semanas acompanhando o sofrimento de alguém que amava pode, sim, sentir alívio quando a morte chega com menos desconforto. Esse alívio é legítimo. Faz parte, inclusive, dos objetivos dos Cuidados Paliativos.

Mas esse alívio não cancela a dor da perda. São coisas que coexistem. Uma pessoa pode agradecer pelo cuidado que foi oferecido nos últimos dias e, ao mesmo tempo, sentir um vazio que não sabe nem nomear.

O luto não precisa ser corrigido

Existe um impulso muito comum — que vem de familiares e mesmo de profissionais de saúde — de querer organizar a dor do outro. De encontrar um ângulo que torne tudo mais suportável. Profissionais de saúde fazem isso. Familiares fazem. Amigos fazem. Talvez todos nós já fizemos.

Tenho aprendido muito, em especial com minha querida psicóloga Paliativista Eduarda Galvão, que o luto, na maior parte das vezes, não precisa de correção. Precisa de reconhecimento.

Quem perdeu alguém não precisa, naquele momento, encontrar um lado positivo. Não precisa relativizar. Não precisa aceitar que “foi melhor assim.” Precisa, antes de tudo, de espaço para sentir o que está sentindo sem que alguém tente redimensionar aquilo.

O que a frase “pelo menos não sofreu” pode comunicar, mesmo sem essa intenção, é algo como: “talvez você não precise sentir tudo isso” ou “tá bom de sofrer, já chega”. E essa mensagem, para quem está no meio do luto, pode ser devastadora. Em especial porque isso pode falar da nossa incapacidade de acompanhar alguém que sofre — e nos colocar sempre no centro do cuidado. Parece que o fato de não sabermos lidar com o sofrimento nos faz querer fugir daquela situação, abafar a dor do outro para nos ver livres daquele lugar.

Então, o que dizer?

Muita gente tem medo de errar diante de alguém enlutado. Esse medo é compreensível. A dor do outro nos desestabiliza, nos faz querer encontrar a frase certa. Mas é aí que erramos o alvo: queremos encontrar a palavra certa para acabar com a dor, quando a dor, naquele momento, precisa ser sentida.

As palavras mais cuidadosas costumam ser as mais simples:

  • “Eu sinto muito.”
  • “Estou aqui com você.”
  • “Não sei o que dizer, mas me importo.”
  • “Posso tentar imaginar o quanto essa pessoa era importante para você.”

Nenhuma dessas frases tenta explicar a dor, nenhuma tenta reduzi-la. Elas apenas reconhecem que a perda existe, que é real e que a pessoa não está sozinha naquilo.

E, às vezes, nem precisa ser uma frase. É ser presença, sentar ao lado, segurar a mão. Tolerar o silêncio. Não mudar de assunto quando o nome da pessoa que morreu aparece na conversa. Esse tipo de presença, sem pressa, costuma ser o cuidado mais verdadeiro que alguém em luto pode receber.

E estar ali, presente. Isso é um baita ato de cuidado.

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Wagner Reis

Wagner Reis

Médico especialista em Cuidados Paliativos, dedicado ao cuidado integral de pacientes e famílias.

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