Neuro-oncologia

Cuidados Paliativos em Neuro-oncologia

Walbert T.Continuum (Minneap Minn) 202510-12 min de leitura

Referência:

Walbert T. Palliative Care in Neuro-oncology. Continuum (Minneap Minn). 2025;31(6, Neuro-ophthalmology):1–18.

Artigo gentilmente cedido por Dr Tobias Walbert, o qual deixo meu grande agradecimento.

Tema Central

Necessidades paliativas e manejo de sintomas em tumores cerebrais primários e metastáticos.

Resumo

Revisão clínica sobre como reduzir sofrimento em neuro-oncologia, com foco em sintomas, tomada de decisão e acesso tardio a hospice e cuidados paliativos.

Para Quem Isso Conversa

Neuro-oncologia, neurologia, oncologia, paliativistas, geriatria, enfermagem, fisioterapia/TO/fono, atenção domiciliar, gestão.

Nosso Ponto de Partida

Tumor cerebral é um tipo particular de "doença grave": ele ameaça a vida, mas também ameaça a autonomia — desde cedo. Não é apenas a dor. É afasia, crise convulsiva, alteração de julgamento, incontinência, perda de marcha. E quando a cognição cai, o custo invisível (mas, muito caro para paciente!) das decisões atrasadas, visitas repetidas, internações evitáveis, família sem preparo para representar a vontade do paciente.

O artigo parte desse chão de enfermaria: a maioria dos pacientes não tem "um sintoma"; tem um emaranhado deles. Em um estudo com 621 pacientes, mais da metade relatou ≥10 sintomas simultâneos e 40% tinham ≥3 sintomas moderados a graves.

Mesmo com esse peso, cuidados paliativos e hospice seguem subutilizados e, quando chegam, muitas vezes chegam tarde — tarde demais para proteger algumas decisões e evitar escaladas.

O Que Foi Feito

Trata-se de um artigo de revisão clínica, que descreve necessidades paliativas em neuro-oncologia e sintetiza evidências e recomendações práticas para sintomas comuns (ex.: cognição, epilepsia, fadiga, cefaleia/edema).

O texto apoia-se em estudos observacionais de utilização de hospice/internações e em ensaios/estudos sobre manejo de sintomas (incluindo dados de RCTs para fadiga).

O Que o Estudo Mostrou

  • Carga de sintomas:Em 621 pacientes, >50% com ≥10 sintomas simultâneos; 40% com ≥3 sintomas moderados a graves.
  • Impacto funcional:>25% dos pacientes com tumor cerebral primário relataram interferência funcional (trabalho, atividades, caminhar, "aproveitar a vida").
  • Hospice/paliativos tardios:Taxas de encaminhamento para hospice em estudos variaram 43% a 76%. Em >12.000 pacientes (Medicare) com tumor primário maligno: 63% em hospice; 23% por <7 dias.
  • Internação e UTI:Em glioblastoma (385 pacientes), 42% internaram no último mês; ~1/3 foi para UTI.

Recomendações Práticas

  • Cognição:Sem evidência conclusiva para fármacos preventivos; reabilitação cognitiva com efeito modesto em selecionados.
  • Epilepsia:Levetiracetam como primeira linha melhor que valproato (eficácia) com tolerabilidade semelhante; opções não-orais para fim de vida (intranasal/bucal) quando disfagia.
  • Cefaleia/edema:Dexametasona como base, mas com desmame precoce; bevacizumabe como alternativa em edema relacionado à radioterapia.

Minha Leitura

À luz desse estudo

  • Tumor cerebral exige um paliativo com "densidade neurológica": sintomas e decisões são diferentes do câncer sistêmico.
  • A grande falha é perder: bom momento de triagem, perceber gatilhos e timing.
  • Hospice/paliativos chegam para poucos, e ainda chegam tarde — e isso conversa profundamente com internação/UTI no último mês de vida.
  • Em fadiga, psicoestimulantes não são "padrão ouro" aqui.
  • Decisão compartilhada precisa acontecer antes da perda cognitiva — e isso é bem valioso na neuro-oncologia.

O Que Isso Diz Sobre Cuidados Paliativos

Este artigo lembra que, em neuro-oncologia, cuidar bem é proteger função, proteger decisão e aliviar sintomas com método — cedo. A evidência forte de benefício do paliativo precoce em câncer sistêmico existe, mas o texto é honesto: em tumor cerebral, o "como" e o "quando" ainda são menos definidos. O que já dá para afirmar com segurança clínica é que a trajetória é previsivelmente complexa, e deixar planejamento e controle de sintomas para o "fim" costuma resultar em mais transições e menos dignidade prática (lugar de cuidado, representante legal, escolhas registradas).

Tradução para a Prática

No SUS e na saúde suplementar, o gargalo é parecido: poucos especialistas, alta demanda, e um sistema que ainda premia "fazer mais" em vez de "cuidar melhor". O artigo sugere um caminho pragmático: paliativo primário forte na equipe de referência (neuro-onco/neurologia/oncologia) + gatilhos objetivos para acionar o especializado (declínio funcional, piora de sintomas, hospitalização).

Isso é aplicável aqui porque reduz "deslocamentos extras" e concentra o recurso raro onde há maior sofrimento, sem perder tempo com burocracia. E, para gestão, há um ponto direto: qualidade no fim de vida pode ser monitorada com indicadores simples de "agressividade" (ex.: UTI/internação/PS no último mês; quimioterapia nas últimas 2 semanas — quando aplicável), alinhando cuidado e valor.

Como Aplicar Isso Amanhã

  1. Mapear risco de perda decisória (cognição/afasia/julgamento) e antecipar conversa de objetivos.
  2. Nomear e registrar um representante – se for desejo do paciente, logo cedo, não na crise.
  3. Triar sintomas de forma estruturada e procurar multimorbidade de sintomas (não "um por vez").
  4. Usar gatilhos para acionar paliativo especializado: queda funcional, escalada de sintomas, hospitalização recente.
  5. Cefaleia/edema: tratar, mas planejar desmame de dexametasona o quanto antes; reavaliar alternativa em edema pós-radioterapia quando fizer sentido.
  6. Epilepsia no fim de vida: planejar via de resgate não-oral se houver disfagia (intranasal/bucal) e orientar família/equipe.
  7. Monitorar "agressividade" no fim de vida como qualidade: PS/internação/UTI e transições desnecessárias.
  8. Checar preparo da equipe: se não estamos confortáveis com sintomas complexos e ACP, referir.

Para Lembrar!

  • Tumor cerebral é uma doença grave com alto entrelaçamento de sintomas — frequentemente muitos ao mesmo tempo.
  • Hospice/paliativos ainda chegam tarde; entrada <7 dias é comum em vários cenários e isso importa.
  • Internação e até UTI perto da morte seguem acontecendo com frequência relevante em glioblastoma.
  • Em fadiga, ensaios com psicoestimulantes não sustentam uso rotineiro; individualizar e monitorar é o caminho.
  • Método aplicável: triagem + gatilhos + plano de decisão antes da perda cognitiva.

Palavras-chave: neuro-oncologia; cuidados paliativos; neuropaliativo; glioblastoma; metástase cerebral; hospice; planejamento antecipado; controle de sintomas; convulsões; dexametasona; fadiga; telemedicina.

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Wagner Reis

Dr. Wagner Reis

Especialista em Cuidados Paliativos com foco em evidência científica e prática humanizada.

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